Julho de 2005
O prefeito de Itaboraí (RJ), Cosme José Salles (PT), institucionalizou o próprio mensalão. Está na Folha de S.Paulo. Lei municipal de dezembro de 2004 estipula: o salário do prefeito deve ser equivalente a 0,5% da receita obtida pela cidade. Dá para imaginar o resultado. Em Itaboraí, município pobre, 70% da população não têm esgoto, 90% das ruas são de terra e a renda per capita é de R$ 202,29. Já o salário do prefeito petista... Em janeiro de 2005, R$ 28.978,00. Em fevereiro, R$ 27.562,00. Março, R$ 24.228,00. Abril, R$ 33.060,00. E, em maio, R$ 33.153,00.
A revista Veja traz detalhes de uma “sociedade secreta” entre Marcos Valério e o PT. A reportagem de Alexandre Oltramari conta a história do empréstimo de R$ 2,4 milhões do BMG ao PT. A operação foi avalizada por José Genoino, Delúbio Soares e Valério. O empréstimo, de fevereiro de 2003, não foi pago pelo PT. O partido acabou socorrido por Valério. O empresário pagou uma das parcelas da dívida, no valor de R$ 350 mil.
Filho do presidente Lula é funcionário fantasma do PT. Os repórteres Lílian Christofoletti e José Alberto Bombig, da Folha de S.Paulo, descobrem que Sandro Luís Lula da Silva, contratado por R$ 1.522,00 pelo diretório do PT em São Paulo, prestava “serviços à distância”.
Cai Silvio Pereira, o secretário-geral do PT. Silvinho, como é conhecido, disfarça o afastamento do partido com um pedido de licença. Na verdade, foi obrigado a se desligar do PT. Acusado de organizar a distribuição de cargos no governo Lula, Silvinho nunca ocupou um cargo público na administração federal. Mesmo assim, costumava despachar com freqüência dentro do Palácio do Planalto. Era ligado ao deputado José Dirceu (PT-SP) e ao Campo Majoritário, a facção petista do presidente Lula.
Cai Delúbio Soares, o tesoureiro do PT acusado por falcatruas. O afastamento é disfarçado de pedido de licença. Delúbio desliga-se do PT, mas trata de proteger o presidente do partido, José Genoino. Isenta-o de qualquer responsabilidade nas decisões da área financeira do partido. E manda a surrada cantilena: acusa “conservadores” e “setores da direita” pelo escândalo. Insiste: tudo não passa de manobra, cuja orquestração tem o objetivo de aprovar o impeachment de Lula.
Marcos Valério depõe na CPI dos Correios. Nega conhecer o mensalão. Nega envolvimento em quaisquer irregularidades. Não satisfaz. Alega que pagou “fornecedores” com saques em dinheiro vivo de R$ 20,9 milhões. Tampouco convence quando diz que “a amizade por Delúbio” foi o motivo que o levou a ser avalista do empréstimo bancário de R$ 2,4 milhões para o PT. Os parlamentares fazem graça da versão. Temendo a execução da dívida, Valério resolvera pagar uma das parcelas do empréstimo, no valor de R$ 350 mil.
E surge mais um empréstimo guardado em segredo pelo PT. O site da revista Época na internet divulga uma operação de crédito no Banco Rural, em maio de 2003, no valor de R$ 3 milhões. O PT é o beneficiário, e o avalista do empréstimo, mais uma vez, o empresário Marcos Valério. Ele assina a transação com o presidente do PT, José Genoino, e com o tesoureiro Delúbio Soares.
Os jornais estampam nas primeiras páginas as fotografias de uma bolada de dinheiro. Trata-se do conteúdo de uma maleta com R$ 200 mil e de outros US$ 100 mil, carregados dentro da cueca do assessor de um deputado do PT. Não qualquer deputado. José Adalberto Vieira da Silva, preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, trabalha para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), o líder petista na Assembléia Legislativa do Ceará. Guimarães é integrante do diretório nacional do PT e irmão do presidente do partido, José Genoino.
Caem José Genoino, o presidente nacional do PT, e Marcelo Sereno, o secretário de Comunicação do partido. Sereno é próximo a José Dirceu. Genoino, homem de Lula, manteve o PT sempre muito próximo do Palácio do Planalto. Outro petista afastado: José Adalberto Vieira da Silva, o assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão de Genoino, que ficou famoso pelos dólares escondidos na cueca.
A Folha de S.Paulo publica entrevista com Robert Lobato, ex-tesoureiro do PT do Maranhão. Ele acusa Delúbio Soares de ter mandado dinheiro diretamente para contas bancárias de militantes do partido, em vez de depositar em contas oficiais dos diretórios do PT. Dessa forma, Delúbio evitava prestações de contas sobre valores movimentados pelo PT. Diz Robert Lobato:
O Jornal Nacional, da TV Globo, leva ao ar uma conversa telefônica gravada pela Polícia Federal. Foi feita em agosto de 2004, quase dez meses antes de estourar o escândalo do mensalão. A fala é de Maria Auxiliadora de Vasconcellos, uma auditora fiscal do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Ela foi presa sob a acusação de integrar uma quadrilha de fraudadores.
Caem os ministros Luiz Gushiken e Romero Jucá (PMDB-RR), acusado de desviar dinheiro de um abatedouro de frangos. Gushiken, integrante do chamado “núcleo duro” de Lula, assegura um cargo na assessoria do presidente. Vai cuidar de um núcleo de assuntos estratégicos. A Secretaria de Comunicação e a propaganda do Palácio do Planalto ficam subordinadas, a princípio, à nova ministra da Casa Civil, Dima Rousseff.
Mais uma versão para o caso do petista preso com R$ 200 mil numa maleta e US$ 100 mil na cueca. No início, José Adalberto Vieira da Silva alegou que era agricultor e o dinheiro, resultado da venda de verduras. Agora, o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), o chefe de Vieira da Silva, envolve um outro assessor de seu gabinete, José Vicente Ferreira. Os dois iriam usar o dinheiro para abrir uma locadora de veículos em Aracati (CE), em sociedade com um terceiro petista, Kennedy Moura Ramos. Diz o deputado:
O Jornal Nacional, da TV Globo, noticia que assessores e até familiares de deputados do PT estiveram no Banco Rural, na agência do Brasília Shopping, local de pagamento do mensalão. Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do líder do PT na Câmara, deputado Paulo Rocha (PA), foi à agência duas vezes. Reação do deputado Rocha: a funcionária foi fazer consulta médica em uma clínica neurológica, que também funciona no prédio.
Uma operação orquestrada. Marcos Valério vem a público e, por meio de nota, nega mais uma vez a existência do mensalão e explica que, “em atenção a pedidos de Delúbio Soares”, “contraiu vários empréstimos bancários em nome das agências de publicidade SMPB e DNA, no período de 2003 a 2005”.
Depois de Marcos Valério, a vez de Delúbio Soares apresentar a versão de que nunca houve o esquema do mensalão, ou seja, os pagamentos de propina a parlamentares, em troca de apoio ao governo no Congresso Nacional. O que houve, simples assim, foram repasses para a quitação de dívidas de campanha, por meio de caixa 2. Para apresentar a versão, Delúbio foi de forma espontânea ao novo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza.
A oposição vai para cima. Acusa o governo de engendrar uma nova Operação Uruguai, em alusão ao esquema simulado pelos aliados do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, para explicar a origem do dinheiro que financiava gastos do ex-presidente. Na época, um empréstimo de US$ 3,7 milhões foi forjado para justificar despesas de Collor. O presidente acabou afastado do cargo, depois de um processo de impeachment. Agora, a farsa contábil é a série de operações de crédito de Marcos Valério. Serviria para esquentar dinheiro de caixa 2 oriundo de fontes ilegais, usado para fazer acertos com políticos da base aliada.
O Brasil debate o caixa 2. É crime de falsidade ideológica prestar informações fraudulentas sobre a arrecadação de dinheiro para campanhas políticas, sem declarar o dinheiro à Justiça Eleitoral. Omitir receitas também é crime de sonegação fiscal. Para a legislação de crimes contra o sistema financeiro nacional, é fraude movimentar recursos de forma paralela, à margem da contabilidade legal. O caixa 2 também é crime contra a ordem tributária.
Provas do mensalão. Deputados fizeram saques de dinheiro em contas das empresas de Marcos Valério, em agências do Banco Rural em Belo Horizonte e Brasília. Documentos em poder da CPI dos Correios mostram autorizações para retiradas, beneficiando três deputados do PT, um do PP e um do PL.
Mais provas do mensalão. Chega ao Conselho de Ética da Câmara o teor de um depoimento prestado à Polícia Federal. É de Simone Vasconcelos, a diretora administrativa e financeira da SMPB, a agência de publicidade de Marcos Valério.
Mais um deputado do PT no escândalo do mensalão. É José Mentor (SP), ligado a José Dirceu (PT-SP) e à ex-prefeita Marta Suplicy (PT-SP), da qual foi líder de governo na Câmara Municipal de São Paulo. Mentor recebeu dois cheques, no total R$ 120 mil. Os documentos estão entre os comprovantes de R$ 50 milhões transferidos de contas de Valério, via Banco do Brasil.
A dívida de R$ 29.436,26 do presidente Lula. Durante cinco dias, a Folha de S.Paulo procurou explicações do Palácio do Planalto. Queria saber como o débito fora pago. O governo, finalmente, emitiu uma nota: “A Presidência da República não tem conhecimento dessas informações, que devem ser buscadas junto ao Partido dos Trabalhadores”.
A revista Veja noticia: Marcos Valério pediu ao deputado João Paulo Cunha (PT-SP) garantias de que não será “enjaulado” por causa do escândalo do mensalão. Além disso, exigiu dinheiro para garantir o futuro da família. Valério teria mandado recado: se não for atendido, vai para Brasília com “quilos de documentos”. Frase atribuída a Valério, com referência a Lula:
O instituto DataFolha divulga pesquisa. 78% da população acreditam existir corrupção no governo Lula. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o respeitável senador Jefferson Péres (PDT-AM) diz estar convencido de que o presidente sabia de todo o esquema de corrupção. Foi poupado apenas dos detalhes. Péres acredita nos pagamentos:
Equipe de reportagem da TV Globo flagra Delúbio Soares ao deixar seu apartamento nos Jardins, em São Paulo. Está no automóvel Marea HLX, com acessórios e blindagem, comprado pelo PT por R$ 104 mil. Faz quase três semanas que o tesoureiro supostamente está desligado do partido, embora o salário, de R$ 12 mil, continue sendo pago pelo partido.
Depoimento à CPI dos Correios. É de Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza, mulher de Marcos Valério, sócia das agências de publicidade DNA e SMPB. Ponto alto do que diz: o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) participou das negociações que culminaram nos dois empréstimos concedidos pelos bancos Rural e BMG ao PT, operações avalizadas por Valério.
A CPI dos Correios aprova pedido de prisão preventiva para Marcos Valério. A decisão ocorre duas semanas após a descoberta das notas e documentos da DNA, queimados em Minas. A justificativa para a prisão é o risco de Valério destruir provas que possam contribuir para a elucidação do escândalo.
Manifestações populares contra a corrupção ocorrem no Rio e em Porto Alegre. Nos protestos, chuva de ovos e confrontos entre populares e policiais militares. Em Brasília, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, descarta a prisão preventiva de Marcos Valério. Para ele, não existem fatos que indiquem uma tentativa de obstrução das investigações. Só isso justificaria a prisão. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Nelson Jobim, nega pedido de prisão de Valério, formulado pela Polícia Federal. A representação baseava-se na queima e destruição de documentos da agência DNA.
Depoimento à Polícia Federal. É de João Cláudio Genu, assessor do deputado José Janene (PP-PR). Ele admite que fez vários saques em dinheiro vivo na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. De setembro de 2003 e janeiro de 2004, foram R$ 850 mil em retiradas. Genu agiu por determinação de Janene e dos deputados Pedro Corrêa (PP-PE) e Pedro Henry (MT).
Um documento do Banco Rural autoriza Roberto Marques, o Bob, amigo e uma espécie de ajudante-de-ordens do deputado José Dirceu (PT-SP), a sacar R$ 50 mil. O dinheiro, da SMPB. A matéria está na revista Veja. A prova, um fax, veio em papel timbrado do Rural, endereçado à agência da avenida Paulista, em São Paulo, em 15 de junho de 2004. Bob trabalha na Assembléia Legislativa de São Paulo, nas proximidades da agência da Paulista.
Simone Vasconcelos, a diretora administrativa e financeira da SMPB, confirma: Roberto Marques, o Bob, o ajudante-de-ordens de José Dirceu (PT-SP), recebeu mesmo autorização para o saque de R$ 50 mil. O deputado Carlos Abicalil (PT-MT) evita a imprensa e não fala mais sobre o assunto.
Marcos Valério faz tremer. Simone Vasconcelos depõe na Polícia Federal, em Brasília. Fornece uma lista com 31 nomes, elaborada por Valério. Traz os nomes de sacadores e beneficiários do mensalão. Todos autorizados pelo PT a fazer retiradas. Total que saiu das contas bancárias das empresas de Valério: R$ 55,8 milhões. Um esclarecimento: nem sempre os beneficiários foram pegar dinheiro vivo no banco. Os mais espertos mandaram assessores e familiares. Eis os principais nomes da lista, com os respectivos valores agraciados, por ordem de grandeza:
