Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

222
21/12/2005

A CPI dos Correios divulga relatório preliminar. Em 411 páginas, o balanço de seis meses de trabalho. De acordo com o relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), o mensalão existiu de quatro formas. A primeira delas serviu para fazer repasses semanais de dinheiro. Vinha de contas de Marcos Valério e ia para a corretora Garanhuns. O destino final, o PL. No primeiro ano da administração Lula, em 2003, foram 24 transferências para o PL, todas entre R$ 200 mil e R$ 500 mil. Ocorreram nos dias 11, 19 e 26 de fevereiro. Em março, nos dias 6, 12, 17, 24 e 31. E em junho nos dias 4, 11, 15 e 18. O último repasse foi em 27 de agosto de 2003. Total: R$ 6,5 milhões. Ironiza Serraglio:

– É o semanadão.

O segundo caminho do esquema, outro padrão de conduta. O mensalão foi usado para repasses e financiamentos a deputados que saíram das legendas pelas quais foram eleitos, e migraram para partidos ligados à base aliada. Entre 3 de abril e 18 de junho de 2003, ocorreram várias transferências de dinheiro para correligionários do PTB. Total: R$ 3,6 milhões. A bancada do PTB foi crescendo, crescendo...

O mesmo mensalão engordou a bancada do PP. Entre 20 de janeiro e 18 de fevereiro de 2004, o esquema PT/Marcos Valério lançou mão da corretora Bônus-Banval. Ela intermediou pagamentos que obedeceram a intervalos variando de 48 a 72 horas. Os repasses ao PP chegaram a R$ 800 mil.

A terceira forma de mensalão apontada pela CPI vinculou repasses de dinheiro a datas de votações. Eram projetos de interesse do governo na Câmara dos Deputados. A sistemática ocorreu de 27 de agosto de 2003 a 15 de janeiro de 2004. No período, foram identificados pagamentos de R$ 15 milhões. Em troca, os parlamentares votaram a favor das reformas da Previdência, tributária, lei de falências e lei da Cide (Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico), todas de interesse de Lula.

O derradeiro e quarto caminho da propina foi o pagamento de R$ 6,5 milhões ao PP, por meio de dez repasses, efetuados entre 26 de abril e 1 de julho de 2004. A intermediária, a corretora Bônus-Banval. O relatório traduz o termo “mensalão”:

“Fundo de recursos utilizado, especialmente, para atendimento a interesses político-partidários.”

Diz Serraglio:

– Está provado que o mensalão existiu. No caso das votações, não estamos afirmando que houve uma vinculação direta. Estamos mostrando as datas. A inteligência de cada um é que vai dizer.

Um dos pontos considerados mais importantes do relatório preliminar da CPI dos Correios, uma auditoria feita pelo Banco do Brasil. Mostrou a ausência de notas fiscais para comprovar serviços relacionados a R$ 23,2 milhões transferidos à agência DNA. O dinheiro seria usado em campanhas publicitárias da Visanet. Contudo, o resultado da auditoria apontou à CPI o desvio do dinheiro público, que acabou no caixa 2 do PT.

Houve coincidência entre as datas de repasses de dinheiro do Banco do Brasil à Visanet, e os empréstimos feitos por Valério junto ao Banco Rural e ao BMG. Serraglio aponta um desvio de R$ 19,7 milhões, dinheiro enfiado no valerioduto. Numa das operações, os famosos R$ 10 milhões do Banco do Brasil à Visanet foram para a DNA, depois ao BMG e, em seguida, serviram de garantia a um empréstimo que alimentou o caixa 2.

Em outra “coincidência”, o relatório descreve uma operação perpetrada em maio de 2003, que envolve R$ 23,3 milhões do Banco do Brasil. O dinheiro foi repassado à Visanet e a empresa de cartão de crédito pagou, nesse valor, serviços adiantados de publicidade à DNA. A agência de Valério, por sua vez, transferiu a quantia para um fundo no Banco do Brasil, e fez um empréstimo no mesmo Banco do Brasil. Alguns dias depois, é a vez da SMPB fazer empréstimo no Banco Rural, para alimentar o caixa 2 do PT. Enquanto isso, a DNA quitava o financiamento de R$ 9,7 milhões junto ao Banco do Brasil.

Afirma Serraglio:

– Comprovamos a utilização de recursos da Visanet pelo valerioduto, com começo, meio e fim. A CPI refuta a versão de Valério e de Delúbio Soares, segundo a qual o caixa 2 foi irrigado por empréstimos bancários. Os supostos empréstimos, jamais devolvidos, teriam servido para justificar dinheiro na contabilidade de Valério.

O levantamento da CPI constatou repasses de R$ 20,3 milhões à margem de contratos, em benefício das agências de publicidade de Valério. O dinheiro veio da siderúrgica Usiminas e de empresas do Grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas.

O relatório também menciona manipulação no balanço da SMPB, para que a agência pudesse participar da licitação feita pelos Correios, em agosto de 2003. A empresa de Valério acabou contratada, com mais duas agências, para administrar uma conta anual de R$ 72 milhões. Em outro contrato dos Correios, suspeita-se de R$ 64 milhões superfaturados em serviços com a Skymaster. Serraglio dá entrevista:

– Tenho o maior apreço pelo PT, mas lamento a forma como vem se conduzindo, no sentido de defender o indefensável. Mensalão e caixa 2 são conceitos que não se excluem. Lamentavelmente, reconheço que temos um sistema de corrupção de parlamentares.

Investigação da Polícia Civil descarta homicídio ou morte natural do perito criminal Carlos Delmonte Printes. A hipótese mais provável, suicídio. Ele foi o responsável por indicar sinais de tortura no corpo do prefeito Celso Daniel (PT), o que contrariou a tese de crime comum defendida pela Polícia Civil. O laudo do Instituto Médico Legal sobre a morte do perito demorou 70 dias para ficar pronto. Não é conclusivo.

Os legistas não identificaram a suposta substância que teria causado asfixia mecânica em Printes. Supõe-se que o perito ingeriu alguma substância letal. Ele morreu antes de ser ouvido pela Justiça. Outras seis pessoas que tiveram algum vínculo com a morte de Daniel foram assassinadas.

anterior | próxima | início