48 horas depois do caso Coteminas ganhar as manchetes de jornal, Delúbio Soares vem a público assumir a responsabilidade sobre tudo. Em nota divulgada por seu advogado, o ex-tesoureiro afirma que o R$ 1 milhão entregue à Coteminas fazia parte de uma reserva do caixa 2 do PT, alimentado por Marcos Valério. No dia em que o escândalo foi divulgado, Delúbio sugerira que o dinheiro não tinha origem nos repasses de Valério. Diz a nota com a nova versão de Delúbio:
“Quando perguntado sobre esse pagamento, lembrei-me de sua ocorrência, mas me equivoquei, achando que tinha sido feito com recursos contabilizados. Na verdade o pagamento foi feito em espécie, com dinheiro que tinha origem nos empréstimos feitos por Marcos Valério ao Partido dos Trabalhadores. Trata-se de parte do valor que, daqueles empréstimos, foi reservado para despesas do diretório nacional do partido.”
Muito bem. Digamos que o R$ 1 milhão entregue à Coteminas era mesmo parte dos tais R$ 55,8 milhões atribuídos ao caixa 2. O último dinheiro desse esquema, conforme a versão de Delúbio e Valério, foi repassado ao PT em 1 de outubro de 2004. Fica difícil acreditar que o R$ 1 milhão estivesse guardado no cofre do PT, por mais de sete meses, até o pagamento ser realizado à Coteminas, em maio de 2005. E, se estivesse mesmo guardado no cofre, não haveria explicação para o PT não ter quitado anteriormente parte da dívida junto à Coteminas, uma vez que os compromissos assumidos com a empresa venceram entre novembro de 2004 e janeiro de 2005.
Tampouco faz sentido a outra afirmação de Delúbio na mesma nota, segundo a qual “novas dificuldades financeiras” teriam impedido que as parcelas fossem “honradas na forma acordada”. Ora, se o dinheiro já estava em caixa, as parcelas poderiam ser honradas sem problemas. Gustavo Fruet (PSDB-PR), sub-relator da CPI dos Correios, irrita-se com Delúbio:
– Juridicamente, a nota pode evitar questionamentos, tiveram tempo para prepará-la. Mas, politicamente, é um desastre, isso é uma ofensa à inteligência, mais uma história inverossímil na sucessão de histórias inverossímeis.
Valério procura não se envolver com a versão de Delúbio:
– Não posso falar que ele está mentindo ou falando a verdade. O dinheiro era do Delúbio, não sei o que ele fez com ele.
O novo tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, parece se esquecer que Marice Corrêa de Lima, a coordenadora administrativa do PT e responsável pela entrega do R$ 1 milhão, assinou recibo emitido pela Coteminas. Ao ser entrevistado, Ferreira diz que ela “cumpriu ordens, nem sabia o que estava levando”. Em seguida, corrige-se:
– Pode não ter sabido, entendeu?
O presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do vice-presidente José Alencar (PL-MG), dá risada ao ser informado de que dirigentes do PT não reconheciam a transação:
– Claro que eles sabiam. Eles que pagaram.
A repórter Mariana Caetano, de O Estado de S. Paulo, publica entrevista com integrante do diretório do PT, que pede para não ser identificado. Diz a liderança petista:
– Esse dinheiro não veio do Valério, veio de alguma empresa que doou por fora.
Do jornalista Fernando de Barros e Silva, no jornal Folha de S.Paulo:
“Quantos milhões ‘não contabilizados’ ainda estarão escondidos sob as desculpas esfarrapadas de Delúbio Soares? E quanto custam o silêncio e os contos de fada do ex-tesoureiro? E quem paga por eles?”
O jornalista continua:
“Delúbio se tornou uma espécie de lixo atômico para o governo e para o PT. É o culpado por tudo, aquele que está sempre disposto a assumir tudo sozinho, mas ao mesmo tempo não pode ser imolado, precisa ser preservado a qualquer custo. A situação é esquizofrênica, mas a equação é simples: se ele explodir (ou falar a verdade), o governo implode, vem abaixo.”
E, por fim:
“Em condições normais, o milhãozinho que saiu do PT e – ninguém sabe, ninguém viu – foi parar na conta da Coteminas seria suficiente para fazer ruir qualquer governo. Paradoxalmente, Lula e o PT se beneficiam da miríade de falcatruas, da profusão de denúncias, do excesso de bandalheira revelada ao país. É como se cada nova história anulasse o efeito corrosivo das anteriores, sucessivamente, numa espécie de jogo entorpecente de soma zero.”
A CPI dos Correios divulga relatório que aponta supostas perdas de R$ 784 milhões às finanças de 14 fundos de pensão, em operações realizadas junto à BMF (Bolsa de Mercadorias e Futuros) e com títulos públicos. O documento relaciona corretoras e pessoas físicas que tiveram lucros milionários com os negócios. Diz o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA):
– O que interessa à CPI são as recorrências, os resultados negativos sistemáticos e contínuos, com os fundos perdendo e os mesmos beneficiários ganhando sempre.
As perdas ocorreram nas operações de compra e venda de contratos futuros e títulos públicos. Os fundos teriam comprado por preços acima dos praticados pelo mercado, e depois vendido por menos. A comissão investiga se a diferença significou prejuízos, se foram intencionais e desviados para fins políticos.
De acordo com o levantamento, entre os mais prejudicados aparecem o Prece, fundo de pensão dos funcionários da empresa de saneamento do Rio. Acumulou perdas de R$ 309 milhões. A Sistel, fundo das empresas de telecomunicações, teria amargado saldo negativo de R$ 154 milhões. A Petros, ligada à Petrobrás, teve perdas de R$ 65 milhões. E a Funcef, da Caixa Econômica Federal, outros R$ 50 milhões.
Na outra ponta, os eventuais beneficiados. Suspeita-se que parte do dinheiro pode ter sido remetida para o exterior. Entre as corretoras, as que mais ganharam, de acordo com o relatório, são a Laeta, Novinvest e Cruzeiro do Sul, com, respectivamente, R$ 55,3 milhões, R$ 30,7 milhões e R$ 26,4 milhões. A comissão quer identificar quem lucrou de maneira ilegal.
Depoimento à CPI dos Bingos. Mara Gabrilli confirma a reunião com o presidente Lula, na casa dele, em São Bernardo do Campo (SP), em março de 2003. Na ocasião, relatou pressões contra a empresa de ônibus Expresso Guarará, de sua família, por conta do esquema de corrupção montado na Prefeitura de Santo André (SP).
Mara conta aos senadores ter denunciado a Lula que a empresa era obrigada a pagar propina para operar em Santo André. Apontou ao presidente o nome das pessoas que considerava responsáveis pelo esquema: o então secretário municipal Klinger Luiz de Oliveira (PT), o empresário Ronan Maria Pinto e o ex-segurança do prefeito Celso Daniel (PT), Sérgio Gomes da Silva, o Sombra.
De acordo com ela, Lula se virou para os três assessores que acompanhavam o encontro e disse:
– Nossa, eu achei que o Sérgio Gomes já estava muito longe.
Afirmação de Mara:
– Eu falei ao presidente sobre o pagamento da caixinha que meu pai era obrigado a fazer a cada dia 30. E falei da retaliação imposta à empresa desde que eu e minha irmã, Rosângela, denunciamos o fato ao Ministério Público.
O presidente prometeu tomar providências e dar uma resposta. Não foi o que aconteceu:
– Ocorreu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.
Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Josias Gomes (PT-BA) confessa ter recebido R$ 50 mil das mãos de Delúbio Soares e sacado outros R$ 50 mil no Banco Rural, para quitar despesas eleitorais. O dinheiro, segundo ele, foi repassado para três candidatos a deputado estadual na Bahia, todos derrotados nas eleições de 2002. Diz Gomes:
– Como poderia imaginar que ali estivesse sendo operado o esquema que saiu na imprensa? Involuntariamente, fui envolvido em algo que não sabia. Jamais ouvira falar em Marcos Valério.
Divulgado em São Paulo o relatório Direitos Humanos no Brasil – 2005. O documento é assinado por 26 entidades da sociedade civil e denuncia 50 mil mortes decorrentes da violência urbana no período de um ano, em todo o país. Há um aumento de 25% em relação às 40 mil mortes registradas no ano anterior. São 137 mortes por dia, quase seis por hora. Outro dado: uma mulher brasileira é espancada ou forçada a manter relações sexuais a cada 15 segundos. E é de 7 milhões o déficit de moradias em todo o país, contra as 6 milhões que faltavam em 2004. Números da era Lula.
