Uma história que mistura pacotes de dinheiro, prostitutas e faz tremer os alicerces do governo Lula. O jornal O Estado de S. Paulo entrevista Francenildo Santos Costa, o caseiro da “casa dos prazeres”, a mansão alugada em Brasília pela chamada “república de Ribeirão Preto”. Ele complica de vez o ministro Antonio Palocci (PT-SP). Na “casa dos prazeres” houve festas animadas por garotas de programa, muitas vezes mulheres agenciadas por Jeany Mary Corner.
A mansão, uma construção de 700 metros no Lago Sul, com quatro suítes, salão de jogos, churrasqueira, piscina, quadra de tênis e sistema de segurança com câmeras de vídeo e sensores de luz, foi usada intensamente durante oito meses e só devolvida depois que o escândalo Waldomiro Diniz ganhou as páginas dos jornais, no início de 2004. A entrevista de Francenildo à repórter Rosa Costa:
– O que chamou mais a sua atenção nos meses em que conviveu com os inquilinos de Ribeirão Preto?
– A forma de pagamento. Era muito bom.
– O pagamento era em cheque?
– Nunca saiu cheque, não. Só em dinheiro.
– Quem morava na casa?
– Ninguém morava lá. Passavam só a noite.
– Quem eram as pessoas?
– Vladimir Poleto, doutor Ralf Barquete, doutor Rui, Ademirson e o chefe.
– Quem é o chefe?
– A gente não chamava de Palocci lá na frente deles. Eles achavam ruim. Tinha que chamar de chefe.
– E eles chamavam Palocci de chefe ou só os empregados?
– Não, era todo mundo: “Olha, o chefe vem hoje. Vamos sair fora e deixar a casa para o chefe”. Isso quando ele ia durante a semana, porque geralmente ele ia no sábado e no domingo.
– O senhor conheceu o ministro pessoalmente?
– Eu via de longe, porque a casa tem sensor de luz que se acendia quando ele aparecia. Via a cara dele de terno e tudo. Num sábado à tarde, cheguei a ver ele com o doutor Rogério e doutor Rui Barquete.
– Onde havia sensores de luz?
– Dentro da casa, para clarear o terreno. Ele pediu para desligar os sensores em volta da casa, mas não teve como desligar. Era para ninguém vê-lo. No jardim tem luzes. Ele falava que não era para ligar a luz do jardim, que queria a casa escura do lado de fora.
– Ele chegava sozinho?
– Chegava sozinho, vinha num Peugeot prata, de vidro escuro, dirigindo sozinho.
– De quem era o carro?
– Era de uso do doutor Ralf.
– O senhor morava na casa?
– Sim. A casa fica do lado da garagem. Quem está lá dentro dá pra ver quem está lá fora.
– O senhor via o ministro chegando?
– É, a gente via.
– Mas ele disse que nunca foi à casa.
– Do lado dele, eu não sou nada, mas ele está mentindo.
– Quantas vezes ele foi à casa?
– Se for contar, que eu me lembre, umas dez ou 20 vezes. Não foram três como Francisco falou.
– Ele jogava tênis?
– Teve um sábado em que estava jogando tênis com o doutor Rogério e Rui, à tarde.
– Buratti freqüentava a casa?
– Umas três vezes o chefe foi para conversar com o doutor Rogério, lá numa sala que tinha televisão. Eles sempre ficavam lá. O doutor Rogério ficava lá com a mulher dele, Carla. Quando iam para São Paulo, Carla vinha no final de semana.
– O senhor via dinheiro na casa?
– Via, via notas, pacotes de R$ 100 e R$ 50 na mala de Vladimir. Ele trazia muito dinheiro. Eu sabia que tinha muito dinheiro porque ele saía do quarto e fechava a porta do quarto.
– Quem pagava as contas?
– Era Vladimir. Vinha uma verba lá de São Paulo.
– De onde vinha o dinheiro?
– Vinha da empresa do doutor Rogério. Era ele quem pagava as despesas, os empregados. Ele passava o dinheiro para Vladimir.
– O senhor participou alguma vez da entrega de dinheiro?
– Um dia o Francisco me chamou para ir ao Ministério. Disse: “Vamos ali mais eu, que você está à toa mesmo”. Chegamos lá, Francisco parou o carro no estacionamento, ligou para o doutor Ademirson. Esperamos uns 20, 30 minutos. Aí ele desceu e Francisco entregou o envelope. Eu vi Francisco pegando o dinheiro. Dava para ver que era muito dinheiro, não era pouco. Acho que R$ 5 mil, R$ 6 mil, R$ 7 mil.
– O pagamento dos empregados da casa também era feito com dinheiro enviado por Buratti?
– Era. Ele passava o dinheiro ao Vladimir, que pagava a gente.
– O dinheiro vinha de São Paulo?
– O dinheiro vinha lá da empresa de São Paulo, eles chamavam de verba.
– Como era o pagamento de vocês?
– Eles pagavam no dia primeiro. Falavam que era até dia 5, mas pagavam antes. Davam R$ 750,00, R$ 770,00, mais um pouquinho. Vladimir era ótimo patrão.
– Onde ele pegava o dinheiro?
– Tinha vez que ele vinha com o dinheiro na mala, vinha do aeroporto, vinha de fora. Sempre pagavam na terça ou na quinta-feira.
– O senhor levou dinheiro outras vezes para Ademirson?
– Francisco deve ter levado muitas vezes. Pelo que eu conversei com ele, ele levou dinheiro para cada um deles. Levava para os apartamentos, para um e outro, doutor Rogério, doutor Ralf. Se precisava de dinheiro trocado, aí Vladimir fazia um pacote numa mesa que tinha lá, separava e mandava Francisco distribuir. Francisco me falou isso.
– O dinheiro que o motorista Francisco levava era para Ademirson ou para o chefe?
– Não posso informar, não. Não sei o que eles faziam com esse dinheiro, não.
– Alguma vez alguém falou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
– Ele era bem falado lá, mas quando falavam no nome de Lula iam lá para dentro. Falava nos eventos, nas viagens que ele ia fazer.
– A casa era mobiliada?
– Não, Vladimir comprou tudinho. As camas vieram assim que ele fez o contrato. As camas novas, tudo camona boa, bonita.
– Eles guardavam roupa dentro daquela casa?
– O Vladimir, o doutor Rogério, o doutor Ralf, sim.
– Por que o senhor decidiu contar tudo isso agora?
– É porque o Francisco depôs na CPI e citou a mim e minha mulher. Fiquei meio com medo e resolvi falar logo.
A entrevista de Francenildo Costa repercute. Ao tomar conhecimento do teor das declarações do caseiro, antes mesmo da publicação da entrevista no jornal, Palocci apressa-se a informar, por meio de sua assessoria, que reiterava o que dissera à CPI dos Bingos: “Nunca foi à casa do Lago Sul e, portanto, não tem qualquer relação com as atividades realizadas na mesma”.
Publicada a entrevista, Palocci aproveita a participação numa teleconferência para tratar de desmentir o caseiro. Diz o ministro:
– Quero até ressaltar que eu não guio aqui em Brasília. Uso carro oficial ou ando com a minha esposa.
Em mais uma nota, a assessoria do ministro volta à carga:
“O ministro Antonio Palocci continua afirmando o que disse à CPI dos Bingos. Ele não foi àquela casa no Lago Sul e não tem conhecimento de qualquer atividade que acontecia na casa. E mais: o ministro não sabe dirigir em Brasília.”
Do senador Tião Viana (PT-AC):
– O ministro disse que está indignado, porém tranqüilo.
Lula também se pronuncia. Diz que, entre os acusadores e Palocci, acredita em seu ministro:
– Estão pegando no pé do Palocci. Ele virou o alvo.
O jornal Correio Braziliense destaca uma análise de técnicos da CPI dos Bingos sobre as declarações de renda de Ademirson Ariosvaldo da Silva, o secretário particular de Palocci. O assessor do ministro quintuplicou o patrimônio em quatro anos. Em 2000, tinha bens declarados num total de R$ 57 mil. Em 2002, o patrimônio alcançou os R$ 93 mil e, em 2004, R$ 306 mil. Entre os novos bens, uma casa de 210 metros quadrados com piscina em Ribeirão Preto (SP) e dois automóveis comprados em 2004. Nem a mulher nem os filhos do secretário particular de Palocci trabalham.
O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 9 votos a 5, o pedido de cassação do ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Em seu parecer, o relator do caso, deputado Cezar Schirmer (PMDB-RS), acusa Cunha de mentir sobre o saque de R$ 50 mil feito por sua mulher, ao dizer que ela fora ao banco tratar da conta de uma televisão a cabo. A retirada que ela fez era de dinheiro do caixa 2 do PT. Entre as denúncias, o deputado petista é acusado de favorecer Marcos Valério ao conduzir licitação irregular para contratar a agência SMPB, de propriedade do empresário, para administrar a conta de publicidade da Câmara.
Para o relator, a contratação da SMPB tem “conflito de interesse”, pois Cunha já contratara Valério anteriormente, para a sua campanha à presidência da Câmara. Além disso, o deputado admitiu que Valério o presenteara com uma caneta Mont Blanc. O empresário também pagou passagens aéreas para a secretária de Cunha.
Schirmer vincula a conquista da conta de publicidade da Câmara ao saque de R$ 50 mil efetuado na agência do Banco Rural do Brasília Shopping, um dia depois de Cunha receber Valério para um café da manhã na residência oficial do presidente da Câmara. O relator viu ainda irregularidades nas notas fiscais com números seqüenciais apresentadas por Cunha, para justificar o uso dos R$ 50 mil em pesquisas eleitorais.
O jornal O Estado de S. Paulo traz novas informações sobre as contas bancárias do publicitário Duda Mendonça no exterior. Documentos enviados por autoridades norte-americanas à CPI dos Correios revelam a existência de mais seis contas secretas. Foi identificada também a Stuttgart Company, outra empresa de Duda fora do Brasil. No total, são dez as contas no exterior. Das seis novas, a metade foi aberta no BankBoston da Flórida, em nome da Stuttgart Company, de Rita de Cássia Santos Moraes (ex-mulher de Duda) e Eduardo de Matos Freiha (sócio do publicitário). As outras três pertencem à Dusseldorf. Uma delas, no BAC Florida Bank, recebeu US$ 1,1 milhão. Doleiros teriam depositado o dinheiro.
